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Esperou... esperou...



E ela acabou a chegar!

- O que aconteceu pequenina?
- Pensei não vir, estava cheia de medo.
- De mim?
- De nós, de recomeçar, de voltar a doer.

Quando o Fernando viu a Elvira pela primeira vez, ela parecia ter saído de um quadro de Renoir. Era frágil, as suas roupas tinham as cores do século XIX, e  uns lábios rosa suave, que muito provávelmente nunca teriam sido beijados. Deixou-o de imediato tão apaixonado que resistir-lhe nunca foi opção, não para ele. Era linda, tão branca que certamente nem os raios de sol a tocavam, e no entanto tocou-a ele.

Nunca imaginara possuir uma mulher assim, que fosse sua primeiro, pela primeira vez, e que precisasse tanto dele para pertencer a este mundo, ao mesmo do qual se mantivera escondida, num lugar que até parecia mágico, com tanta cor, tanto talento...

Elvira era uma pintora, reconhecida, que vendia tudo o que produzia, mesmo antes de ser criado. Os clientes, que ela nunca chegava a conhecer, esperavam meses por uma tela plena de uma magia de um outro mundo, o mesmo no qual vivera até se conhecerem.

O Fernando adorava a sua casa, tocar cada objecto, os livros de capa dura, autografados por autores dos quais jamais ouvira falar. Tudo parecia estar no lugar certo, com uma luz própria, a que ela criara para se embrenhar bem dentro de cada cor. Os pincéis pareciam mágicos, sobretudo quando estavam nas mãos pequeninas, mas tão determinadas, que ninguém diria serem dela.

Elvira não olhava nos olhos, não antes, mas passou a entrar bem dentro dos dele, implorando-lhe, sem palavras, o que lhe ensinara a desejar. Fazer amor com ela era um sonho, beijar a sua pele uma adicção, deixá-la um desespero, uma tortura.

- Não te vou magoar, apenas roubar ao mundo que afinal nem te conhece, que não se importa contigo.
- Preciso de voltar ao antes para criar, já não tenho um lugar só meu, agora estás lá tu e...
- Vem cá pequenina, deixa-me cuidar de ti, já te tirei da tela, ofereci-te a realidade, a mim, e tu gostaste, deixa-te ficar.

Talvez alguém já tenha pintado um quadro assim, com duas pessoas que se misturam nas mesmas cores, sobre uma paisagem que ninguém reconhece, mas que só poderia estar ali. Se o virem e se sentirem que estão num mundo paralelo, que o vosso olhar entra, cada vez mais, bem dentro da alma de seres que não se distinguem, porque se fundiram. Quem sabe não estarão a olhar para o Fernando e para a Elvira!


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