Me dancing!





Já não me recordava de quando teria saído à noite assim, tranquila, sem amarras, sem horas para regressar, apenas com o intuito de me divertir, de estar com pessoas bonitas, divertidas, vivas. Éramos um grupo de mulheres bastante generoso, ok, exagerado, acho até que assustámos os homens mal entrámos. Cada uma mais bonita do que a outra, sim eu também, claro. Ainda faço voltar muitas cabeças. Ah pois!

No início da noite fui-me deixando ir nos seus risos, olhei em volta, sorri para mim mesma, gostei da sensação de estar descontraída, pronta para me sentir. A música estava ainda suave e consegui seguir alguns olhares que me seguiam, mas eis que começam a tocar o “Would I lie to you”, do Charles & Eddie. Saltou-me a mola, levantei-me e fui dançando languidamente até à pista. Eu sei que quando danço estou viva outra vez, o meu corpo ganha movimentos que me transcendem, sou naturalmente sensual, mas quando danço mato! Culpem a genética se quiserem, ou a minha mistura de sangue africano, mas na verdade tudo no meu corpo vibra logo que a música o atravessa. Foi por isso inevitável ser olhada e admirada, alguém sussurrou que seria impossível olharem-me sem me verem. Algumas pessoas nascem com certos dons, o meu será talvez este, o de alimentar sensações através das que provoco.

Quando finalmente dei pela sua presença, estava quase em cima de mim, de olhar incrédulo e igualmente intenso. Viril, de boca carnuda. Tinha um sorriso indefinido, de desejo, de espanto. Não tive como fugir, nem sequer vontade. Soube-me bem sentir que me desejavam, senti um arrepio na coluna, os meus seios ficaram mais rijos, caramba, afinal estou mesmo viva, desperto emoções e consigo que me façam sentir desejo. Ou será fomeca? Nãaa! Nem todas as pessoas conseguem mexer connosco, este homem estava ali para me mudar a noite, quiçá a vida, e eu queria. Que sensação estranha, mas ao mesmo tempo tão boa por dentro. Estou de vestido preto, bem cintado, de decote generoso, nada exagerado, mas no entanto deixa antever o que tanto enlouquece os homens. De botas altas completo o conjunto, ajuda-me na minha sensação de domínio, de segurança interior. Sei que estou bonita, apetecível, sinto-me arrojada e gosto. Sou eu a dominar!

Sinto o teu abraço forte na minha cintura, estamos bem próximos agora, consigo ouvir a tua respiração descompassada e já não vejo nada à minha volta, para além de mim só estás tu. Desejo-te, quero-te na minha boca, estou bem encostada a ti, esmagas-me os seios, sopras-me nos ouvidos que sou bonita, que te enlouqueço e sentes-me estremecer do prazer que já antecipo. De onde saíste tu? Porque me deixas assim? Será da música?

Eis que me tiras o ar, comprimes os meus lábios, não me dás margem para qualquer movimento, estás dentro da minha boca, da minha alma, sinto a tua língua quente, suave, que se move sem pressas, sei exatamente o que fazer, como te acompanhar, nunca te beijei antes, mas parece que sempre te tive, a tua boca é a que eu desejei. Seguras-me a nuca, sinto o teu prazer encostado em mim. - Quero-te, por favor quero-te, consigo sussurrar.

- Estás a ter-me, estás a sentir a minha vontade de ti. 
A música está a terminar, já vislumbro os olhares incrédulos das minhas amigas que nunca antes me viram enlouquecer e perder as estribeiras. Algumas sorriem, outras quase que aplaudem e eu por dentro estou mais inteira. Se não tiver mais nada de ti, tive o bastante. Trouxeste-me de volta a certeza de que é possível, algures, ao som de qualquer música, sentir a nossa natureza em força. A tua voz determinada e viril, os teus lábios suaves, doces e irresistíveis deram-me o mundo de volta. Fiz amor contigo, tive o prazer que muitos corpos jamais sentiram mesmo sem que tenhas estado dentro de mim.

Já tudo se calou, os sons e as cores e até as vozes que ecoaram sem palavras. Passou a noite onde o meu corpo encontrou outro que lhe encheu e preencheu como nunca achara possível. Ainda carrego o teu cheiro e sei o sabor dos teus lábios. Estás tatuado nos meus sons, nos movimentos que o meu corpo solta sem o meu controle. Foi a dançar que te tive e vou querer a tua boca outra vez. Um dia, numa outra música!