E quando eu te esquecer?

Message in a Bottle on Sand



Olá meu amor,

E se depois de tantos anos juntos, que até vieram tarde demais porque gostaríamos de nos ter pertencido antes, eu te esquecer e a tua face já não me recordar de tudo o que conseguimos construir juntos?

Que medo sinto de te perder, mesmo estando ainda perto. Medo de não te saber mais tocar e sequer ter como juntar a minha boca à tua, como sempre fiz, sem nunca me fartar, porque beijar-te era deixar-me ir inteira, sugando-te o que parecia apenas pertencer-te. Que medo, gelado, de cair num abismo, de me perder para um lugar do qual jamais voltarei, sendo o nada, ficando despida de mim e já nem usando as palavras com que te envolvia sempre. Que medo de deixar de ter o corpo que te enlouquecia, de perder o calor que me subia até quase me sentir rebentar, porque te antecipava, bem dentro de mim, dando-me o prazer que me transformava numa mulher diferente, mais arrojada e totalmente tua.

Como vais tu lidar com os meus silêncios, e o que restará de mim quando já não souber articular nenhuma palavra, quando até os dias mais importantes da nossa vida se transformarem em pó? Gostava de te implorar que me segurasses, que me apertasses forte e que me protegesses de mim, da minha incapacidade de recuperar, um dia que fosse, porque sei que a minha viagem começou, que rapidamente estaremos em lados tão opostos, que já não teremos mais volta.

Deixa-me dizer-te, agora que ainda me sinto e que sou eu inteira, nestes minutos que bem poderão ser os últimos, que te amei como nunca achei possível e que mesmo tendo prometido que jamais te abandonaria, acabei traída por algo bem mais poderoso do que eu. Perdoa-me homem da minha vida, não vou estar por perto quando precisares de mim, para te cuidar como apenas eu saberia, mas vou deixar-te o melhor que fui, mesmo que lamentavelmente saia "daqui" vazia, sem qualquer bagagem, sem voz, sem olhar e sem toque. Não sei para onde vou e por quanto tempo, mas sei, neste preciso momento ainda, que não mudaria nada do que fui para ti, e que se tivesse que voltar atrás, se me concedessem um desejo, seria apenas para te abraçar mais tempo, mais vezes e mais forte.

Enquanto ainda sou eu, vou ter que te agradecer porque cada pedaço de memória que construíste comigo, e que tu manterás, muito para além da escuridão que se instalará na minha. Quando o que eu sou partir, liberta-te do meu corpo e fica apenas com o que alguma vez importou. Um dia estaremos juntos outra vez e nessa altura eu saberei que és tu, prometo.

De quem ainda se lembra que te adora,
S.A